Second Chance








1º Capítulo: A vida nem sempre é como queremos.

Eu mal queria acreditar na notícia que recebera cinco horas atrás. Como podia ser verdade? Como Bella podia ter morrido? Ainda semana passada a gente havia se falado. Ela me havia descrito com entusiasmo seus planos de vir terminar a faculdade de Biologia aqui em Londres e de querer viajar pelo mundo inteiro numa aventura com a sua filhota.
Ela tinha tanta esperança de que iria sobreviver a essas doença que era impossível não acreditar que ela apenas fosse morrer por velhice.
Receber aquela chamada foi como uma bomba em meus braços.

“-Lamento muito, , mas Bella faleceu essa madrugada.”

Percebia na voz de Charlie o pesar e a força de vontade em se manter firme ao me dar a notícia, mas eu já não reagi da mesma forme. Fiquei em choque por um mísero segundo e em seguida deixei cair o telefone estrondosamente no chão, me deixando desabar, também, ao lado do aparelho destruído, rompendo em um acesso de choro incontrolável.
Fiquei assim até meu melhor amigo – Richard, um quase irmão com quem dividia o apartamento – chegar e me resgatar daquele estado calamitoso, me consolando como só ele sabia fazer.
Foi ele que tomou a decisão e a iniciativa de me organizar uma viagem de urgência para Washington.

-Você tem de ir no funeral dela, honey. Tem de estar presente para dar apoio à sua afilhada e a Charlie. – Richard me incentivou mesmo que eu soubesse que não iria conseguir dar apoio nem a mim mesma.


Agora estávamos nos despedindo no aeroporto. Ricky me abraçava apertado me deixando quase sem ar, mas com a sensação de proteção.

-Não esqueça de fazer as escalas. Tem uma em Praga, outra em Buenos Aires e a última é em Seattle. Você deve chegar a Port Angels amanhã ao fim da tarde. – Ele me instruía e enumerava como a uma criança perdida.

Assenti em silêncio sentindo meus olhos arderem e minha cabeça latejar pelas inestimáveis lágrimas derramadas.

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Já se tinham passado mais de 24 horas de viagem e por fim chegara a Port Angels. Meu último transporte era uma camionete para Forks que não tardava a partir. Me acomodei em um dos assentos e encostei minha cabeça na janela, me perdendo na paisagem que me cercava. Não que eu conseguisse observar atentamente os pormenores, pois meus olhos começavam pesando cada vez mais. Não havia conseguido pregar olho desde ontem e agora meu corpo e mente se ressentiam.
Acabei adormecendo e mergulhando em um mar de sonhos incompreensíveis.

Eu caminhava sem um rumo aparente por uma estrada deserta. Tudo em meu redor era ermo, mas com vivos e fortes tons de verde. Não se avistava uma alma viva, animal ou qualquer outra espécie de ser vivo a milhas. Na verdade, eu não conseguia enxergar sequer o que tinha pela frente, como se uma névoa espessa cobrisse meu campo de visão.
Caminhei por minutos incontáveis sem que de fato eu me chegasse a cansar. Nem chegava a parecer que eu realmente estivesse caminhando, mas sim como se o chão deslizasse sobre meus pés.
Por fim a bruma começou dissolvendo e à minha frente pude avistar uma bifurcação.
A estrada do lado esquerdo me levava a um caminho sem fim à vista; a do lado direito levava a um estradinha de terra, com fortes tons de marrom avermelhado, para dentro de uma floresta alta e densa.
Por qualquer motivo eu sentia um ódio tremendo daquela floresta, mas ao mesmo tempo sabia que era segura. Mas a outra estrada, apesar de mais previsível e segura, me dava a nítida sensação de ser perigosa, de uma maneira qualquer.
Mas pela tipicidade e “clichezismo” das escolhas humanas, eu optei pelo caminho que mais me seduzia. O perigo.
Quem daria a mão ao seu inimigo mais odiado? Por mais que te oferecesse segurança, o trilho da floresta me repelia enquanto o trilho perigoso me atraia.

Acordei, antes de saber aonde aquela trilha me iria levar,  por uma senhora de meia idade que me avisava da nossa chegada. Lhe agradeci e desci a camionete observando a minúscula e tradicional cidade de Forks.

-! – Escutei a grave e doce voz de Charlie me chamar.

Me virei rapidamente e esbocei um sorriso sincero, correndo para o seu abraço.

-Tio Charlie. – O chamei carinhosamente. – Eu lamento tanto pela sua perda…

-Nossa, , nossa perda. – Ele me corrigiu me abraçando pela lateral e nos encaminhando até as malas.

Ele pegou nas duas sozinho e caminhou menos de 10 metro até alcançar a sua viatura policial.

-Precisamos mesmo de ir nele? – Perguntei torcendo o nariz para o carro.

-É o único carro que eu tenho. – Ele sorriu fraco, corando um pouco.

De imediato me recordei de Isabella, pois esta também era uma característica dela.
Reprimi a vontade de chora e entrei no veículo.
A viagem foi bem curta e silenciosa e logo estávamos estacionando em frente à simples casa dos Swan.
A porta se abriu de imediato e de lá saltou uma lindíssima e crescida Alyssa que me surpreendeu ao saltar no meu colo.

-Tia! – Ela exclamou se aninhando em meus braços.

-Céus, Alyssa… - Murmurei não contendo mais o choro

Quis me segurar, quis ser forte, mas não aguentei.

-Não fique assim, titia. Mamãe está bem, está em um lugar melhor. Sem mais dor nem sofrimento. E sei que ela está olhando por nós, cuidando de onde quer que esteja. – Falou enxugando minhas lágrimas.

Suas palavras me emocionaram ainda mais tanto quanto me surpreenderam. Como ela conseguia lidar com tudo isso tão bem e com tanta maturidade?

-Eu sei meu bem, mas é que a titia é bem chorona mesmo. – Sorri enxugando as lágrimas.

Entramos em casa pelas mãos de Lyss e nos instalamos na sala, escutando atentamente suas tagarelices sobre os últimos anos desde que eu deixara de as visitar.
Por fim ela adormeceu em meus braços e eu a aconcheguei no sofá depois que Charlie me chamou para ir na cozinha.

-Acho que você precisa se alimentar.

-Verdade, meu estômago está roncando mais que leão. – Sorri me sentando à mesa e me servindo de um prato de comida de encomenda.

-O funeral será amanhã. Preferi esperar por você. Sei o quão importante era para ela. – Charlie falou baixando o olhar e fingindo comer.

-Obrigada por isso, tio. – Sorri fraco, colocando uma garfada de comida na boca.

Terminamos de comer em silêncio e no final suspirei exausta.

-Melhor você deitar. Eu também vou deitar Alyssa. – Charlie indicou e eu assenti.

-Onde me deito? – Perguntei já bocejando.

-No vosso quarto. Quer dizer…desde que Alyssa nasceu passou a ser o quarto das duas, mas Bella agora.. – Ele explicou sem jeito, reprimindo um soluço de realidade no final.

-Eu posso dormir no sofá, Charlie. Não sei se me sentiria bem em deitar na cama dela. – Respondi fazendo uma careta envergonhada.

-Você pode dormir na cama que era sua e que agora é da Alyssa. Desde que Bella foi internada, Lyss tem dormido na cama da mãe. – Ele explicou em sussurros, carregando a neta no colo e subindo até o quarto, a depositando na cama de Bella.

O quarto continuava exactamente o mesmo desde que me lembrava e isso me trouxe uma onda intensa de recordações. Recordações de quando éramos jovens meninas, feito a Lyss, e vivíamos em Pheonix. Das vezes em que vínhamos passar férias a Forks. Da vez em que, pela primeira vez, Bella viajou sozinha para visitar o pai e voltou grávida de um tal de Jacob Black. Do quanto eu me culpei por a ter deixado sozinha e desamparada, pronta para cair nas garras de um bad boy qualquer. Lembro do dia em que parti para estudar em Londres. Dos olhos perdidos de Bella e do choramingo da pequena e frágil Alyssa, prestes a completar um aninho de vida mas já muito apegada à madrinha. E depois as vezes em que eu as vinha visitar, que se tornava cada vez mais escassos até eu deixar de vir com a fácil desculpa de que o trabalho consumia todo o meu tempo.
Abandonada, Bella acabou por se mudar definitivamente para Forks. Me contara ela que René iria casar de novo mas que ela não gostava desse padrasto.
Me deitei por fim e fechei os olhos, me forçando a adormecer. Não sei por quanto tempo fiquei fingindo que dormia, mas acabei por cansar abrindo os olhos e percebendo que o céu começava a clarear. Olhei no relógio alarme em cima do criado mudo e constatei já serem pouco depois das 5 da madrugada.
Esfreguei os olhos me sentando na cama e fiquei assim, olhando o quarto, até meus olhos baterem em algo que logo reconheci. O diário de Bella.
Saltei da cama , o mais sorrateira possível, e caminhei na ponta dos pés até à estante onde o diário se encontrava, em uma prateleira bem alta – reparei – talvez para Alyssa não chegar nele.
Deslizei meus dedos pela lateral do diário e o peguei. De imediato notei a presença de outros cadernos do mesmo género e logo percebi serem outros diários. Peguei os dois últimos e os trouxe comigo para a cama. Sabia que este eram os mais recentes pois Bella tinha uma mania de arrumar tudo ordenadamente. Certamente os diários estavam organizados por data.
Me sentei na cama e abri o primeiro. Estava datado dos anos 2004/2007. Em uma página qualquer comecei lendo os excertos.

17 de Agosto de 2004

Hoje me sinto bastante pesarosa. Fazer essa viagem sozinha até Forks é muito chato e até estive para desistir de vir.
está empolgada com os preparativos para ir morar para Londres. Mas e eu? Qual será o meu rumo depois que ela partir?
Começo já sentindo a sua falta. Já me sinto perdida e abandonada sem ela nessa viagem que tão habitualmente faço todos os anos. Mas a vida segue destinos diferentes dos que queremos e eu tenho de me habituar a isso.

Senti meu coração apertar, mas continuei lendo, virando a página e lendo a passagem seguinte.

22 de Agosto de 2004

Os primeiros dias em Forks foram os piores de toda a minha vida. O tédio e a solidão consumiam cada célula do meu corpo mesmo que Ang e Jess sempre me convidasse para sair ou para me fazer companhia. As coisas não eram as mesmas sem .
Mas hoje foi diferente.
Ang me convenceu a ir com ela, Jess e os rapazes até First Beach, uma praia que existia a poucos minutos de Forks Não que o tempo estivesse propriamente bom para tomar banhos de sol, ou algo do género, mas Tyler garantia que o mar está com excelentes ondas para surfar.
Acabei por concordar após grande insistência das meninas, alegando que iria ser bem divertido e que eu precisava de sair.
Me aconcheguei bem com um casaco impermeável, cachecol, luvas e gorro. O tempo estava realmente mau e se eu queria passar algum tempo na praia de forma agradável, tinha que me agasalhar.
Logo chegamos na praia e os meninos deliraram assim que viram o mar. Retiraram suas roupas quentes e rumaram em direcção ao mar já vestidos com as suas roupas de Surf Neoprene, feitas de borracha.

-Não sei como eles aguentam entrar naquela água gelada. – Me lembro de comentar. Eu acho que teria morrido só de tirar minha roupa, quanto mais entrar naquele mar.

Fiquei cansada de estar dentro da Kombi de Tyler por horas infinitas, apenas observando os rapazes tirarem ‘grandes ondas’ e fazerem maravilhosos ‘Back Side/ Wash’ e outras expressões que não peguei.
Decidi então ir caminhar para ver se aquecia. As meninas preferiram ficar e eu não me queixei. Precisava mesmo ficar um pouco sozinha.
Andei tempos infinitos por toda aquela praia de tons cinzas e creme. Cansada decidi parar e olhei em volta para ver onde me situava. Até que avistei um grande grupo em volta de uma fogueira. O que mais me fez focar naquele grupo foi o tom das suas peles. Era algo como marrom avermelhado com um brilho um pouco mate, mas atraente. E como eles eram bonitos…e diferentes.
Quando notei que estava focando eles sem desviar, já era tarde. Tentei disfarçar mas não adiantou; uma garota um pouco mais alta que eu e de corpo mais acentuado, já caminhava em minha direcção. Seu rosto era doce mas mesmo assim tentei recuar e ir embora mas ela me chamou

Comecei lendo na transversal – saltando várias partes - ao perceber que o texto ainda era extenso pois Bella começava detalhando toda a sua conversa e convivência com o estranho grupo. Por fim cheguei à parte final.

Agora, no conforto da minha cama, não conseguia parar de pensar naqueles belos e intensos olhos negros nem no brilhante e contagiante sorriso dele. Não conseguia para de pensar em Jacob Black.

Reprimi uma onda de fúria dentro de mim ao ler o nome daquele crápula e desisti de ler aquele diário. Com certeza falaria ainda mais dele, da gravidez, da minha partida…Pousei aquele diário e peguei no outro o folheando.
O começo mencionava a minha estadia definitiva em Londres e o fato de eu ter deixado de aparecer. Datava também a partida de Bella para uma moradia fica em Forks, junto do pai, e uma breve passagem sobre alguns reencontros com o tal de Black.
Saltei a maioria das folhas e parti para as passagens finais.
Juntei forças e comecei a ler.

12 de Março de 2010

Apesar de tudo, hoje é um dia feliz.
tem mantido um contato mais frequente comigo desde que meu pai a avisou de minha doença. Sinto em suas palavras um peso de culpa, mas eu não a culpo de nada.
Não a posso culpar da minha doença, ou de ter partido para construir um futuro melhor e garantido para si. O passado é isso mesmo e não podemos amargar para sempre aquilo que mais nos magoou na altura.
Apenas ficou bastante feliz por ela ainda me considerar a sua melhor amiga como eu nunca a deixei de julgar.
Para além disso, a novidade é que eu agora tenho um novo companheiro de quarto. Não passarei mais minhas noites sozinha. Além de que, pude reparar e muito bem, ele é lindo. Muito lindo. E depois ele tem umas características tão marcantes. O seu sorriso torto, que de vez em quando – muito de vez em quando – ele me lança mesmo sem me dirigir uma só palavra; o brilho intenso dos seus olhos esmeralda; e – não sei se é de estar sempre a dormir e de nós nunca termos a oportunidade de nos “arranjarmos” – o seu cabelo tem uma peculiaridade bastante sexy, pois mesmo desarrumado, ele fica desconcertantemente encantador.
Sei que a altura não é a mais aconselhável para flertes, mas esse cara misterioso não sai da minha cabeça.

-Tia?

Fechei o caderno apressadamente e o escondi atrás de mim assim que escutei a voz rouca de sono de Alyssa me chamando.

-Lyss, já acordou? – Questionei preocupada mas ao olhar o relógio constatei que já eram 7h30 da manhã.

-O enterro…é às 9h00. – Ela me lembrou e eu assenti. – Já estava acordada há muito? – Perguntou esfregando seus olhinhos.

-Na verdade…não consegui pregar olho a noite toda. – Confessei suspirando cansada.

-Essas covas negras debaixo dos seus olhos te denunciam, tia. Acho que terá de colocar várias camadas de maquiagem ou usar constantemente uns óculos escuros. – Me aconselhou sapeca.

Concordei sorrindo e logo começamos nos aprontando. Separei uma saia jeans escura e uma blusa azul de manga comprida para Lyss e peguei em um de meus vestidos negros, mais sóbrio, usando por baixo uma meia preta.
Prendi, no final, meu cabelo com duas mechas frontais em uma pequena trança para trás.

-Você pode me fazer uma trança também? – Lyss pediu e de imediato assenti.

A sentei na ponta da cama e comecei entrançando seu lindo cabelo negro.

-Seu cabelo é muito sedoso. – Comentei o acariciando por entre meus dedos.

-Mamãe falou que herdei ele de meu pai. – Ela falou e eu torci o nariz sem que ela pudesse ver. – E o formato do rosto também. Só a cor dos olhos e a cor da pele saí mais à mamãe. – Ela continuou e eu sorri.

-Você conheceu…seu pai? – Hesitei.

-Sim. Me lembro de o ter visto duas ou três vezes quando era mais pequena. Mas não recordo muito dele…

-Meninas, vamos?- Charlie nos chamou, interrompendo o falatório de Alyssa.

-Prontinho. – Falei terminando de prender a trança e a colocando sobre o ombro de minha afilhada.

Por fim partimos até o cemitério de Forks e, quando chegamos, nos dirigimos de imediato para a pequena capela, onde já um grupo considerável de pessoas nos aguardava.
O padre nos fez as honras e logo entramos na capela. Ao fundo estava o caixão aberto com o corpo da minha melhor amiga, minha irmã. Senti que ia desfalecer, mas me segurei. Charlie acabou não aguentando mais e rompeu em lágrimas sobre o caixão de sua filha e eu o puxei para ampará-lo em meus braços.
Alyssa também se empoleirou na cintura do avó o reconfortando, mas a escutei reprimir o som dos seus choramingos e soluços.
O padre veio nos dar algumas palavras de conforto e nos pediu que escolhêssemos seis homens para carregar o caixão.
Charlie chamou os amigos mais próximos de Bella, Mike, Ben e Tyler, bem como o médico que cuidou e acompanhou Bella até a hora da sua morte, Emmett Cullen. Estava faltando um homem, mas antes que chegássemos sequer a procurar, um homem que me fez parar o fôlego, se ofereceu. Me recompus assim que ele parou na nossa frente, estendendo a mão para Charlie e se apresentando.

-Edward Masen. – Falou galante, me lançando um sorriso hipnotizante. – Eu era um conhecido de Bella…do hospital. – Falou em meias palavras mas Charlie apenas assentiu aceitando sua ajuda.

Todos nos preparamos para a marcha. Eu, Alyssa e o padre partimos na frente de todos, os homens com o caixão vinham atrás e no final a procissão. Ao chegarmos no espeço reservado ao enterro, o caixão foi depositado, cuidadosamente, dentro da cova. Nessa hora Alyssa gritou e correu até o buraco - talvez finalmente caindo na realidade de que nunca mais veria sua mãe e que aquele era o adeus final – mas o tal de Edward a segurou e se abaixou para lhe sussurrar algo. Lyss logo foi se reconfortar nos braços do avô. O padre recitou alguns salmos e sermões e no final cada um atirou uma tulipa amarela – as favoritas de Bella – para cima do caixão.
Assim que chegou minha vez, senti minhas pernas bambearem e custarem a andar. Joguei a túlipa ao mesmo tempo que caí no chão de joelhos e rompi em um choro obstinado enquanto os restantes atiravam suas flores e Ben e Tyler iniciavam o enterro.
As pessoas começaram dispersando até ficar apenas eu. Continuei chorando e lembrando de todos os meus momentos com Bella, de todos os nossos sorrisos, nossas brincadeiras, nossos abraços, nossas conversas. De todas as vezes que desabafámos, contávamos segredos sobre juramentos e pactos. De todas as descobertas que fizemos juntas e dos planos para o futuro que incluía apenas nós duas e que eu tão cedo destruí.
Cansada, ergui minha cabeça fitando a floresta, como se um íman me puxasse, como se tivesse escutado uma voz me chamar, e logo uma sensação desagradável me assomou assim que avistei um vulto fugindo para trás das árvores, a fim de se esconder.
Por puro instinto me ergui de imediato e corri em direcção à floresta, mas quando lá cheguei não havia ninguém nem “vultos fujões”. Olhei em volta frustrada e acabei por desistir quando um pensamento me alertou do ridículo.
Me voltei rapidamente para ir embora, mas acabei trombando em alguém. Temi que fosse a pessoa do vulto, por tanto permaneci inerte, mesmo que acabasse por inspirar fundo me inebriando pelo doce e grave odor – numa mistura contrária – do seu perfume.
O som de um coração batendo forte e descompassado me fez tomar reacção e erguer o olhar lentamente me surpreendendo ao fitar aquele rosto de anjo. Logo percebi que aquele coração que batia, daquele jeito frenético, era o meu.